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Adaptação vs Autenticidade: o conflito que começa na infância

  • Foto do escritor: Marisa Revez Mendes
    Marisa Revez Mendes
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Criança que esconde partes de si para se adaptar.

Se há algo que aprendi com a travessia que fiz para enfrentar o trauma de abuso sexual na infância, é que este evento é apenas o portal que me permitiu aceder a outros patamares de memórias que haviam sido reprimidas.


Memórias do meio envolvente, das dinâmicas entre os elementos da família nuclear na qual me incluo e memórias de medo que senti. Medo de não ser amada, de desagradar ou de ser repreendida. Memórias que me fizeram entender que o desempoderamento começou muito antes do abuso sexual ter ocorrido. Memórias cujas experiências e avassaladoras emoções sentidas levaram a decisões internas instintivas de sobrevivência pelo entendimento adquirido:


- “Há partes minhas que desagradam, são criticadas e rejeitadas por quem me cuida, devo por isso escondê-las e anulá-las. Por outro lado, devo esforçar-me para perceber o que lhes agrada e ser da forma que mais lhes convém. Só assim garanto amor, valorização e vinculação segura.

É desta forma que começa a tensão entre garantir a segurança dos vínculos dos cuidadores e a expressão livre da autenticidade do Ser. Em maior ou menor grau na nossa infância, todos fomos confrontados com este conflito interno e respectiva decisão.


Para quem o experienciou de forma constante e intensa ao longo da infância e adolescência, tal como eu, que fique com a seguinte certeza: desenvolveu um ardiloso mas altamente eficaz mecanismo de adaptação ao meio e aos outros, e talvez ainda hoje como adulto, esteja a operar em grande parte do seu dia a dia através dessa adaptação.


O preço que paga? O mesmo que eu paguei ao longo da minha vida até aqui: o auto abandono e a auto desconexão parcial ou quase total do verdadeiro Self. Tornámo-nos adultos altamente funcionais para a sociedade e para os outros, mas verdadeiros desconhecidos para nós mesmos.


Uma subtil apatia teima em sussurrar, que tratamos de silenciá-la com mil e uma tarefas e dramas quotidianos que nos ativam constantemente a corrente de cortisol e adrenalina e assim te-mos uma boa justificação inconsciente para continuarmos na trama da vida, distraídos.


É preciso um momento de crise para nos levar questionar quem verdadeiramente somos e quem viemos ser: o fim de um relacionamento infeliz, talvez um burnout por chefias tóxicas, uma escalada de conflito familiar quiçá ou a velha conhecida apatia, que de sussurros passa a presença assídua e persistente, drenando-nos toda a energia vital, motivação pela vida e clareza de decisão e direção, a um nível em que torna-se impossível negá-la ou dela continuarmos dissociados.


Talvez tu que me estás a ler estejas a sentir ressonância com algum destes possíveis cenários. Ou talvez ainda estejas distante deste ponto. Independentemente de quão resignados estejamos a parar de fugir do chamado para o reencontro connosco mesmo, o maior obstáculo será com certeza o nosso medo em enfrentar a nossa história, em revisitar as memórias antigas, o que foi abafado nos lugares secretos da psique e, principalmente, do que poderá mudar em nós e na relação com os outros. Acima de tudo, temos medo de aceder à nossa potencia interior e a quem verdadeiramente somos. Temos medo do nosso potencial e da nossa incapacidade para sustentá-lo, de acordo com a frágil percepção que testemunhamos acerca de nós mesmos no agora.


De facto, o caminho é desafiante porém simples. A Ação, planeada e preparada, e no seu conjunto as ações continuadas no tempo, é o que levará à mudança interna de deixar de operar no mecanismo de adaptação e passar a operar na autenticidade. E no conjunto dessas ações, é o primeiro que tem um evidente sabor agridoce: um misto entre a curiosidade em explorar o caminho  ao verdadeiro Eu, e o medo sempre constante de pisar o desconhecido.


Esta dualidade pode ser experienciada de forma mais dura, crua e avassaladora quando o caminho é feito por conta própria, sozinho, ou pode tornar-se uma experiência mais articulada e leve se for acompanhada, sobretudo, por quem já conhece a travessia.


Se é aqui em que te encontras e gostarias de uma abordagem em partilha, podes agendar a Sessão de Clareza & Direção, comigo.


Assim, fica a sugestão: se isto ressoou, volta a ti!

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