O que há em comum entre: Eu, a Mafalda de Quino e A Grande Travessia.


No passado fim-de-semana sai de casa de madrugada com a Flicka, a minha pequena canina Maltês, e fomos assistir ao nascer do dia junto à praia. Tinha sido uma semana difícil. Alias, as últimas. Tive de deixar a casa onde estava, fazer uma mudança sozinha e apesar de todo o amor feminino e maternal com que fui recebida na nova casa, família do coração, sem nada me ser exigido, o tsunami emocional estava ainda contido e a contaminar-me o espirito órfão. Por isso, nada como o mar, a praia e o journaling para amenizar este estado e transmutá-lo.
Até que, inesperadamente, batem-me no vidro do carro: “toc toc”. Olho em sobressalto, catapultada da profundidade do meu ser entre-linhas. Era uma cliente-amiga dos tempos da Be Brave que estava na sua rotina matinal de corrida. Enquanto a Flicka ficou a ladrar na sua percepção de ameaça, demos um abraço suado entre sorrisos surpresos pela coincidência, afinal de contas, já fazia um bom tempo que eu não fazia este ritual ali e ela costuma fazer a sua corrida para o lado oposto da cidade. Ambas sabemos que não existem coincidências mas sincronicidades, logo ela me disse:
— Não vais acreditar, mas eu estava a correr e tu aqui às voltas na minha cabeça… é que comecei a ler o teu livro ontem…
No seu jeito curioso, eufórico e intenso bombardeou-me com perguntas de preocupação para as quais tanto o meu cérebro ainda entre-linhas do journaling, e o meu espirito órfão ainda contaminado, ficaram confusos e o melhor que conseguiram foi articular semi-frases ambíguas enquanto a ansiedade crescia. Sensitiva e também habituada a rastrear ambientes e emoções, logo captou o desconforto e aligeirou a conversa:
— E essa franja? Que franja é essa?! Eu quando te vi lembrei-me da Mafaldinha…
Rimos. Contei-lhe a peripécia de ter cortado a franja em casa pela segunda vez, ainda sem entrevistas à vista. A primeira vez, cautelosa, fiz um excelente trabalho por isso considerei continuar a pratica até voltar à minha cabeleireira de eleição que cuida dos meus caracóis. Mas da segunda vez, um rasgo de excesso de confiança fez-me esquecer que quando se corta um curly hair molhado, depois de seco ele sobe para mais de metade… Depois de uma tesourada valente percebi quão torta tinha ficado e na tentativa de remendá-la, continuei a cortar e ela cada vez mais torta. No final fiquei quase sem franja, e torta ficou. Pensei: «Olha paciência, agora já está, não há nada a fazer, que todos os meus problemas de vida fossem a franja. As entrevistas só devem começar daqui a um mês até lá cresce, e fica linda e maravilhosa outra vez.». No dia a seguir ligaram-me da produção da SIC, para agendar a primeira entrevista para a semana a seguir no Julia… a Lei de Murphy sempre à espreita para nos tramar!
Achei curioso a comparação com a Mafalda de Quino. Nunca tive grande tendência a ler banda desenhada, nem da Mafalda, mas sei que a sua principal característica, além da franja é ser contestatária. Sorri intrigada e fui perguntar ao Sr/a. Gemini:
«A Mafalda é o reflexo perfeito das inquietações sociais e políticas dos anos 1960 e 1970, funcionando como a "voz da consciência" do criador, Quino.»
Palavras como inconformismo com guerras, injustiças e política; a resistência a qualquer forma de autoridade e imposição; o idealismo de paz e união global; revolução à governação e o cuidado ao Globo Terrestre para curar os “males do mundo”.
Percebi que tenho muito mais em comum com a Mafalda do que a mera franja. Tanto quanto o mundo de hoje continua a ter com o mundo de há 60 anos atrás, mesmo depois de tantas mudanças.
Enquanto a Mafalda ganhou voz na banda desenhada de Quino, eu ganhei através d’A Grande Travessia. Em ambas: a voz que contesta, que procura a justiça e a verdade, que recusa encolher-se perante dinâmicas de abuso e de autoridade, seja no micro sistema família, seja no macro sistema politico, que procura contribuir para um Globo Terrestre melhor, onde a paz, a união e a cooperação entre todos os seres possam sair do idílico e tornar-se a realidade de todos nós, Humanidade. Ambas, somos “voz de consciência” que desafia.
Talvez a diferença de 60 anos me tenha permitido ir um bocadinho mais longe do que a Mafalda. Porque para o mundo mudar, a consciência colectiva precisa expandir. Expandir a consciência implica deixar estados de ser e de atuar movidos por culpa, vergonha, medo, tristeza e raiva, e passar a operar em estados de coragem, aceitação, empatia e amor.
E para que tudo isto aconteça só há uma via: cada um de nós precisa ativar a coragem capacitadora e enfrentar a sua história, o seu passado. Elaborar e processar memórias e emoções que estão algures numa sala de espera da psique até hoje. Olhar para a versão de si, criança, e dar-lhe/se o colo tão desejado, ativando essa fonte de amor por si mesmo/a. Percorrer a sua Grande Travessia interior, reorganizar-se, desenvolver o seu Líder Pessoal interior. A mente torna-se um comando de operações funcional, a Intuição desperta. Renasce a Autenticidade: essa verdade interior que será exteriorizada no mundo em poder e consideração por si, pelos outros e pelo mundo. Só assim o Globo Terrestre será um lugar melhor para cada um e para todos.
Idealismo? Talvez. Mas tal como a Mafalda provocou as mentes mais adormecidas e contribuiu para o seu despertar, também faço agora o mesmo através d’A Grande Travessia. Para deixar o Globo Terrestre um bocadinho mais consciente e saudável do que o encontrei quando cá cheguei, nos anos 80.
Unidos, e cooperando, por uma Humanidade melhor… que assim seja.
MRM

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